"Invejo - mas não sei se invejo - aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer.
Que há (de alguém) confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.
Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Crochê das coisas... Intervalo... Nada...
De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter... uma vontade morta e uma reflexão que embala, como a um filho vivo... Sim, crochê..."
Não ia nem botar aspas, ia deixar as palavras como se fossem minhas. Porque são.
Sou ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.
Neste computador rendo a mim com as palavras num quase diário ao acaso.
Sou menos medíocre por isso. E por isso mesmo continuo reles, me sentindo menos medíocre. Porque sou mequetrefe e tenho "a glória noturna de ser grande não sendo nada".
Sou Bernardo Soares e dizendo isso me sinto pretensiosa ao extremo. Como pode? Pretendo ser muito, querendo e sabendo não ser nada?
Desassossego.
(19 de Abril de 2007)
Que há (de alguém) confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.
Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao fazê-la, o pensamento é livre, e todos os príncipes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Crochê das coisas... Intervalo... Nada...
De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo... Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter... uma vontade morta e uma reflexão que embala, como a um filho vivo... Sim, crochê..."
Não ia nem botar aspas, ia deixar as palavras como se fossem minhas. Porque são.
Sou ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.
Neste computador rendo a mim com as palavras num quase diário ao acaso.
Sou menos medíocre por isso. E por isso mesmo continuo reles, me sentindo menos medíocre. Porque sou mequetrefe e tenho "a glória noturna de ser grande não sendo nada".
Sou Bernardo Soares e dizendo isso me sinto pretensiosa ao extremo. Como pode? Pretendo ser muito, querendo e sabendo não ser nada?
Desassossego.
(19 de Abril de 2007)
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